terça-feira, 6 de Outubro de 2009

Há professores e Professores

Nestes meses em que o trabalho aperta, as solicitações são mais que muitas, o tempo está a ficar triste e há um corropio de novidades todos os dias,, poderia vir aqui falar de assuntos vários. Como as mudanças no panorama político nacional, o novo programa do Gato Fedorento, a pandemia de Gripe A, o início das épocas de futebol. Mas não.
Venho-vos presentear com uma coisa que realmente me tocou. Algo que gostaria de ter lido já há mais tempo, não fosse ter sido escrito há tão pouco. Algo que posso mostrar quando alguém me vier com a conversa "de sempre": És um menino do Dona Maria; Dona Maria - escola de elites. Algo que mesmo quem não conheça a realidade não perderá muito (bem pelo contrário) em ler.


Somos 150 mil professores. Porquê eu? Não, não sei dizer por que me escolheram. Mas também não posso começar por vos dizer que a minha história é vulgar nem sequer que é uma história feliz (apesar de isso ser verdade). Um professor sabe que o primeiro encontro tem de ser marcante. Principalmente quando se é um professor feliz, sabe-se que é essencial, no primeiro dia em que se encara uma turma de rostos anónimos, começar a criar laços. Para isso o professor tem de dar aos alunos um pouco de si; e também de desejar receber, da parte de cada um deles, pelo menos o suficiente para que ganhem um nome.
Ora vamos, então, recomeçar. Chamo-me Maria Manuela Carvalho, tenho 52 anos, e fui para o curso de Matemática por... amor. Hum... muito bem. Agrada-me esse revirar de olhos de aborrecimento - "Lá vem mais uma louca..." Vou fazer de conta que não vejo, vou continuar: "... por amor... não à Matemática, claro. Mas por amor ao rapaz que hoje, 30 anos depois, é o meu marido."
Ok, já estão a sorrir, atentos. Cá está, reparem: vou dar-vos algo de mim, da minha história verdadeira, que me aproxima de vocês pela idade com que comecei a namorar com ele, 16 anos; que me humaniza, porque mostra que não sou perfeita e até menti aos meus pais; e que vos desafia, porque vos digo, desta maneira, que é possível ultrapassar obstáculos.
Vá. Imaginem-me com 18 anos. Vivo no Porto, mas quero ir estudar para Coimbra, para perto do meu namorado. Mas os meus pais dizem-me que nem pensar, que não aceitam essa despesa evitável nem me vão deixar fugir para fora da sua alçada. Mas eu sou teimosa - vocês não são? - e não desisto. Sempre quis ser professora, mas ainda hoje não sei de quê. Vou à universidade e pergunto que curso NÃO vai abrir. Matemática? Hum... professora de Matemática: por que não?
Foi uma guerra. Os meus pais não queriam acreditar, obrigaram-me a fazer testes psicotécnicos mas, para quem sabe e gosta de matemática, não é difícil descobrir o que responder para que os resultados coincidam com esta súbita vocação. Que só encontra resposta, claro, na Universidade de Coimbra...
Seres únicos
Sorriem. Agora é a vossa vez. Não, não quero saber que notas tiveram no ano passado. Como se chamam? Que fazem nos tempos livres? Têm animais de estimação? E irmãos? Quantos, com que idades? Assim, aos poucos, cada um dos vossos rostos vai ganhando uma personalidade.
Durante uns dias, ainda vos pedirei que ponham um papel com o nome sobre a secretária. Mas nem imaginam o esforço que farei para muito em breve os saber, a todos. Sei como isso é importante, como é significativo, para vós, sentirem que os vossos professores vos vêem como seres únicos, merecedores da sua atenção individual, dirigida.
E têm razão: cada um de vós é diferente do colega do lado; não há duas turmas iguais; não há duas escolas que se pareçam. Sei do que falo - tenho 30 anos de serviço. Já dei aulas em escolas conhecidas como muito difíceis e em escolas assim-assim. Agora estou numa escola muito particular, a Secundária Infanta D. Maria, em Coimbra.
Há quem lhe chame escola de elite, mas não admito que alguém sugira que ali se escolhem os alunos. Eles é que escolhem a escola. É procurada especialmente por quem quer prosseguir os estudos e particularmente por quem quer ir para Medicina. E sim, numa turma de 28 alunos em que 28 lutam por dezanoves e vintes o sucesso acontece com facilidade.
Estranho, não é? Tantos a quererem ser médicos... Que é feito dos meninos que queriam ser bombeiros, polícias, professores, advogados? Quem lida convosco já percebeu há muito que não se vive uma crise de vocações. Assusta-vos o desemprego e Medicina é dos poucos cursos que têm alguma saída profissional.
Mas, acreditem, é doloroso ver-vos crescer com esse sonho. Principalmente quando, no 11.º e 12.º anos, começam a perceber que não chegarão lá. Quantos choram ao receber um teste com nota de 17 ou 18 valores!... Eu bem vos digo: "Há tanta coisa tão mais importante na vida!" Mas vocês choram. E, quando vão parar a outros cursos, que não escolheram, são infelizes.
Este ano, decidi dar aulas às turmas de Economia. De alguma forma, são aulas também exigentes - como não precisam de notas tão altas, os alunos estão mais relaxados e se a aula não é dinâmica... desligam. Mas, acreditem, são meninos mais felizes. E para nós, professores, o facto de não estarem tão preocupados com as notas também torna as coisas mais fáceis.
Sim, porque nos últimos anos, principalmente, o momento da avaliação tornou-se dramático. O baixo nível de dificuldade dos exames e dos testes intermédios, feitos pelo Ministério da Educação e corrigidos de acordo com os critérios por ele enviados, permite-vos tirar boas notas. E com dois testes por período, um do ministério, outro feito por nós, as comparações são inevitáveis e resultam, sempre, em acusações de que vos estamos a dificultar a vida.
É esta a nova e fantástica realidade: antigamente os alunos tinham medo dos exames, agora têm medo da avaliação dos professores. Baixamos o nível de exigência? E depois? Que será de vós na universidade? Isto para não falar do que se passa noutras escolas, onde muitos não querem ter mais do que o 12.º ano. Esses olham para o lado e vêem os colegas das "novas oportunidades" a conquistarem, sem qualquer esforço, um certificado de habilitações que, para todos os efeitos, vale tanto como o deles. Que motivação têm para estudar?
Pronto, já me calo, sei que estão fartos destes temas. Mas deixem-me dizer-vos, pelo menos, que se neste momento sou capaz de dizer que sou uma professora feliz é porque acredito que o modelo de avaliação que contestámos não será aplicado e que a divisão de carreiras deixará de existir; e também porque sinto que, ao contrário do que pretendia a senhora ministra, os professores são respeitados pelos pais, pelos alunos, pela sociedade em geral.
Uma classe amachucada
Em relação ao Governo não foi uma grande vitória, dir-me-ão... Depende da perspectiva: foi o levantar de uma classe que se sentia amachucada, um dizer não. Também lá estive, nas manifestações. E quando olhei para aquela avenida cheia de professores, aos milhares, a lutarem por uma mesma causa, pelo direito a serem isso mesmo, professores, chorei de emoção.
Espero que percebam. É importante que este clima de contestação desapareça e que voltemos a estar concentrados no que interessa: em vós e na vossa aprendizagem. Precisamente porque cada um de vós é diferente e precisa de nós, completos, de uma maneira diferente, também. Como, aliás, nós precisamos de vós.
De uma forma ou de outra, somos sempre compensados. Conto-vos uma história. Sempre que dou uma matéria difícil, aviso: "Isto é mesmo muito difícil e é preciso estarem com muita atenção e concentrados para perceberem. Mas, se realmente aprenderem, nunca mais se vão esquecer!" Imaginam o que senti há tempos quando, no fim de uma aula dessas, recebi uma salva de palmas?
Mas não é preciso tanto. Quando temos uma turma com meninos cheios de problemas, que vivem em instituições e bairros sociais e nos chegam com nível 1 e 2 a Matemática, tanto como de aprender eles precisam de mimo e de incentivo.
Às vezes, temos de dar um abraço antes de dar a matéria e temos de saber ensinar a mesma coisa de muitas maneiras diferentes. Lembro-me de uma menina a quem eu tentava desesperadamente explicar a adição e a subtracção com números positivos e negativos. Até que me lembrei: "Vamos imaginar que tens 20 escudos. Tens "mais 20". E agora vais à loja e compras uma chiclete que custa dez escudos: ficas com "menos 10"."
Aqueles olhos negros estavam fixados em mim e enchi-me de esperança: "Então vá: tu tens 20 escudos e vais comprar uma chiclete que custa dez escudos. Como é que escreves a operação?" E ela, indiferente ao papel em branco, mas encantada com a fantasia: "Ó s"tôra, eu nunca tive 20 escudos. Mas, se tivesse, acho que comprava duas chicletes." Não pude deixar de me rir e, no fim da aula, dei-lhe 20 escudos.
Que desejo eu desta criança? O que é que torna compensador um ano de trabalho? Um 20? Palmas? Quando no fim do ano perguntei quem gostava de matemática e a vi a sorrir, de dedo no ar... há maior vitória?
A partir de uma entrevista com Maria Manuela Carvalho


P.S. Não foi minha Professora, mas podia ter sido.

quarta-feira, 9 de Setembro de 2009

Calamidade ou um grande negócio?

Observem bem este documentário produzido na Argentina. Coincidências a mais?

segunda-feira, 7 de Setembro de 2009

Azar?

Confesso que já há bastante tempo que ando para aqui escrever algo. Mas vi-me e desejei-me até encontrar assunto para o qual "aparvalhar". Nem a queda da falésia (convém não brincar com tragédias), nem a Selecção Nacional (mais uma vez convém não brincar com tragédias), nem a pré-campanha eleitoral me tiraram da preguiça e da monotonia e me fizeram escrever umas palavras. Contudo, hoje, tudo mudou! E porquê? Por causa da Sra. Cristina Araújo. Se por acaso é leitora assídua deste blog, ou até mesmo se estiver de passagem, um grande bem-haja.
Mas... Dª Cristina, permita-me o descaramento de hoje falar da sua história. Presumo que não se importe, uma vez que leio a sua história precisamente num órgão de comunicação social, na edição online do jornal Expresso. Contudo, aviso-a desde já que não me limitarei a relatar a sua história mas sim a comentá-la da forma que muito bem me aprouver. Se por acaso a ofender, peço-lhe por favor duas coisas: em primeiro lugar, obviamente, peço desculpa; em segundo lugar, peço-lhe para que não ligue à PRISA e à Media Capital e não me feche o estaminé. Adiante!
Que tem afinal a Dª Cristina Araújo de especial. "Mãe de 3 filhos (...) passou por dois divórcios e uma viuvez". Ok. À partida pensam vocês, é azarada. Não discordo. Mas não foi isso que me chamou à atenção. Esta senhora - pasmem-se! - foi apanhada nada mais nada menos que 37 vezes a conduzir sem carta.
Azarada? Talvez! Ou então não. Diz ela: "Há duas coisas de que não prescindo: do carro e do telemóvel". Pois, está bem visto. Mas calma pois, segundo ela, conduz "melhor do que muitos encartados". Até pode ser que sim, nunca a vi conduzir mas, oh Dª Cristina, 37 vezes? É preciso ter-se muito azar, não? Ou então... (cala-te boca!)
"Tenho tido muito azar", diz ela ao Expresso. Cá está. Também me pareceu que sim. Eu cá acho que é preciso um azar do caraças para se chumbar 10 vezes no código e, mesmo assim, sem carta, andar a conduzir a 200 km/h na autoestrada ou então, fazer todos os dias um percurso de 80 km de carro. Depois , claro, 37 vezes! Ele há cada uma. É que é mesmo azar! Chiça. Uma pessoa, ali, certinha, a conduzir, sem levantar ondas a ninguém e, os senhores agentes da autoridade - mania que são mais que os outros - só porque, por azar (é não é?), uma pessoa não está legalmente habilitada a conduzir, pimba!, apanhada. Já foste. Multa e processo em tribunal. Uma, duas e três... e trinta e sete (!!!) vezes. Que azar!
Mas não se façam já falsos juízos de valor sobre a Dª Cristina. Ela até é uma mulher precavida. E mulher precavida vale por duas. Ora reparem: "trago uma manta na bagageira, caso seja apanhada. Assim, posso dormir no banco de trás". Sem comentários, acrescento eu. Está tudo dito.
Ai, desculpem-me, afinal não está tudo dito. É que hoje, a Dª Cristina vai ser julgada em Tribunal e, segundo o seu advogado, "é mais provável ser presa do que ser punida com trabalho comunitário". Nada de novo, portanto. É que já entre 2005 e 2008, a Dª. Cristina esteve presa devido, precisamente, a conduzir sem documentos. Enfim...
Ah! Já me esquecia. Adivinhem qual a primeira coisa que a Dª Cristina fez quando saiu da cadeia, em 2008? Isso mesmo! Conduziu do Porto até Lisboa, pela autoestrada, prego a fundo.



P.S. - Para provar que isto não faz parte da minha imaginação, deixo aqui, para vosso deleite, o link para a notícia no site do Expresso: http://aeiou.expresso.pt/apanhada-37-vezes-sem-carta=f534315

sexta-feira, 4 de Setembro de 2009

E quem não Mete a Sexta, não é cá da malta!

Quem diria, ausentei-me tanto tempo e agora é isto...
A TVI Mete a Sexta? Então não é que meteram a Sexta, o Jornal de Sexta, no lixo?
Foi um verdadeiro Verão a varrer na TVI e a meter tudo no olho da rua. Resta saber quem segurou na pá e na vassoura. Aliás, no aspirador... MODERNICES!
No meio disto tudo, ao contrário do que se possa pensar, a Manuela Moura Guedes ficou satisfeita pois agora sempre pode dizer que aquele "beicinho de plásticas mal feitas", se deve ao facto do Jornal de Sexta ter acabado.
Vá Manela, FAZ BEICINHO!
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quarta-feira, 2 de Setembro de 2009

Dívida consciente

Há muito que ando para opinar sobre vários assuntos, no entanto o tempo e a disposição não abundam nos dias que correm.
Um dos assuntos a que me refiro é a constante publicitação dos prejuízos dos hospitais EPE em Portugal.
Eu não sei que ideias correm nas cabeças pensantes dos governantes, gestores e cidadãos em geral quando se admiram com o prejuízo das entidades publico-privadas hospitalares. As universidades/escolas de gestão não descobriram a pólvora, nem me parece que façam milagres quando:
Os gastos dos monstros hospitalares com profissionais, material de uso diário e medicamentos, acrescentando outra imensidão de factura relacionada com a energia, manutenção informática, alimentação, lavandaria e diversas outras áreas são muito grandes.
A poupança potenciada por gestores normalmente gera-se onde se deveria tocar por último - os cuidados a cada utente - e onde se deveria racionar gastos a impotência na gestão permanece.
Um Serviço Nacional de Saúde (SNS) e um acesso aos cuidados de saúde em Portugal tendencialmente gratuitos, que mesmo assim ainda não consegue abranger a totalidade da população, resulta em receitas muito diminutas, comparando com as despesas.

Posto isto, vejo com algo cepticismo a "vontade" expressa por muitos de fazer da saúde nacional um negócio lucrativo, quando na minha opinião este só pode ser (nestes moldes, com os quais concordo em grande parte) menos dispendioso. No futuro, ainda com tendência para se agravar o défice da balança com o constante envelhecimento populacional.
No final...todos querem pagar o mínimo possível e receber os melhores cuidados, esquecendo-se que tudo isto custa, não só dinheiro mas esforço de muitas pessoas que para isso trabalham.